Quinta, 22 Novembro 2018 14:00

Sou exceção à regra e a regra é o negro estar em subfunções, afirma secretária

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Mirella Duarte
RDNEWS

 

Na semana da celebração da consciência negra, alguns debates voltaram a se aflorar, como a questão da dívida histórica com a população negra, racismo e o papel da educação como influência na vida das pessoas e sociedade. O conversou com Ozenira Felix, que já foi professora da rede publica estadual e municipal de ensino e hoje é secretaria de Gestão da Prefeitura de Cuiabá. Mulher, negra e em um cargo de destaque, ela confessa já ter passado por situações de discriminação durante sua trajetória e opina sobre questões sociais importantes no Brasil, como a escola sem partido, negros em cargos de chefia e as dificuldades encontradas pelo caminho.

 

Confira os melhores trechos da entrevista:

 

Como começou sua carreira e como foi à vinda para Mato Grosso?

 

Éramos cinco irmãos, só dois conseguiram efetivamente estudar e os demais não. Foi uma quebra de paradigmas na família cursarmos faculdade, meu irmão fez Direito e eu fiz Letras. Cheguei a Mato Grosso em 1988, como professora, junto a uma leva com mais de 40 professoras. Profissionais naquela época combinavam por telefone, você chegava à cidade sem saber onde iria ficar. Vim numa migração muito forte do interior de São Paulo. A maioria eram filhos de sitiantes bem pequenos.

 

Neste ano, com o período de eleições, muito se debateu sobre a impossibilidade de uma dívida histórica, oportunidades iguais e inexistência do racismo. O que pensa sobre isso?

 

Estou estarrecida, o Brasil tinha evoluído bastante, mas não o suficiente a ponto de reconhecer o preconceito. Talvez tivesse só uma máscara social para isso, acho que agora se aflorou o que brasileiro pensa. Não são todos, o próprio negro brasileiro também pensa assim. Eu poderia dizer hoje que eu estou aqui como secretária de Gestão do município, já fui professora e cheguei no meu objetivo, mas eu sou a exceção da exceção da exceção e tenho consciência disso. Para isso tive que deixar filhos e casa, trabalhar triplicado para conseguir. A maioria não vai conseguir sair do subemprego, não vai sair das favelas e não vai sair de onde está. Não adianta falar que todo mundo tem a mesma oportunidade, que não tem. Não existe oportunidade igual. Existe uma divida histórica conosco, se o negro chegou aqui, ele chegou obrigado e o que está acontecendo agora eu acredito que era algo que estava adormecido dentro de cada cidadão e com todo esse contexto político aflorou. É muito triste, mas precisava acontecer para desmascarar tudo isso. Havia uma consciência que não era consciência, era velada. Parte da população está com a idéia de que dia 1º de janeiro não terá mais Lei, que vai ter um revolver e vai poder matar mais negro ou homossexual. Pegaram pelo pior lado do discurso.

 

Já passou por situações em que duvidaram da sua capacidade por ser mulher e negra?

 

Mulher é sempre muito mais complicado, a gente sempre tem que provar dez vezes mais do que o homem branco. Se a mulher já tem dificuldade de trabalho, a mulher negra é o dobro. Passa por situações de discriminação, mesmo quando você chega ao seu objetivo continua passando por situações complicadas, principalmente pela sua cor. Ninguém fala que é a cor. Aqui mesmo [no gabinete na prefeitura] tem gente que chega e assusta. Teve uma situação em que um homem entrou, olhou e quase voltou, e me falou que não sabia que a secretária de Gestão da prefeitura era uma mulher. Deu pra perceber que a reação não foi apenas por ser mulher, era questão de ser uma mulher negra. Na área administrativa, que estou desde 2003, o negro é exceção e como são os melhores salários, existe o preconceito. Tive apoio de quem acreditou no meu potencial, agarrei essa oportunidade quando tive a chance na área estratégica do Governo. Muitas vezes eu ia pra reunião, todo mundo entrava na sala, mas ninguém me chamava, porque ninguém acreditava que eu estaria com governador ou outras pessoas importantes. Na reunião, perguntavam porque eu não havia entrado e viam que não haviam me deixado entrar. Isso aconteceu várias vezes, não foram poucas. Eu sou uma exceção a regra e a regra é o negro estar em subfunções e não alçar cargos maiores e ai, quando as pessoas vêem essa regra, elas não querem aceitar porque parece improvável.

 

Como é a realidade das escolas em relação aos debates contra o preconceito?

 

A educação é sempre mais humana, tem todo um envolvimento com família e lá, o preconceito é bem menor. Existe preconceito dentro das escolas, isso a gente não pode negar, mas isso é fruto da sociedade. Não há nada que se possa fazer só dentro da escola, a escola não educa o povo, ela passa a educação formal. Isso tem que mudar na casa da pessoa. A escola não consegue transformar aquilo que vem do leito da família e da sociedade, talvez ela dê uma polida na pessoa se a gente trabalhar bem o conteúdo na sala de aula.

 

Dentro deste contexto, como avalia a escola sem partido?

 

A escola sem partido é um absurdo. Tanto é que quem militou pela suposta escola sem partido são de partidos de direita, como aquela deputada do Rio Grande do Sul, usando a camiseta do Bolsonaro dando aula. Ela pode estar dando matéria, mas a camiseta é partido. A posição política é inerente ao ser humano, existem sim professores radicais e de esquerda, direito ou centro, o professor faz parte da sociedade e ele é um ser humano. Da mesma forma que ele entra com a posição dele, daqui a pouco vai entrar outro com outro tipo de posição. A maioria dos professores, pelo menos os da minha época, são conservadores e a educação não é progressista, ela é conteudística. Se todo mundo fosse de um pensamento mais progressista a educação não estaria como ela está hoje.

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